São Martinho nasceu na Hungria em 316, mas foi em Tours, onde este soldado do império romano morreu a 11 de novembro, que a devoção nasceu. Durante a Idade Média, milhares faziam peregrinações até à cidade francesa para rezar pelo santo e encomendar as suas boas graças.

Conta a lenda que, num dia frio de outono do ano de 337, o cavaleiro Martinho, encontrou na rua, ao frio, durante uma tempestade, um homem que lhe mendigou uma esmola. Martinho, que não trazia dinheiro, rasgou o manto que tinha às costas e deu-o ao mendigo.

O milagre aconteceu. A chuva e o frio desapareceram nesse momento e o sol apareceu, dando origem ao “verão de São Martinho”. 

Martinho tomou, então, a decisão de deixar o exército e tornar-se monge, ajudar os mais desfavorecidos e espalhar a fé cristã na Europa.

O seu dia é celebrado a 11 de novembro, data em que foi sepultado na cidade de Tours. A partir do século IV, a cidade atrai peregrinos de todos as partes movidos pela fé em S. Martinho. Sobre o seu túmulo foi construída uma basílica que foi uma das maiores da Europa. Alterada ao longo dos séculos, ela continua a ser um ponto de peregrinação no verão. Os viajantes chegam usando a tecnologia mais moderna (o GPS no telefone) ou a mais simples: seguindo os círculos prateados que assinalam o caminho de São Martinho. 

No século XXI, em Portugal, São Martinho é sinónimo de bom tempo, castanhas e água-pé. O bom tempo está garantido, as iguarias também podem ser saboreadas em vários pontos do país até ao fim de semana. 

Em Grândola, a castanha é o ingrediente chave das cerca de 30 propostas que vão ser apresentadas em 12 restaurantes da vila do distrito de Setúbal que participam na Semana Gastronómica de São Martinho até domingo. Segundo o município alentejano, os restaurantes aderentes apresentam aos clientes mais de 30 propostas, doces e salgadas, desde “os pratos clássicos e tradicionais aos sabores da nova cozinha”.

O dia de São Martinho é também celebrado na terra de Miguel Torga, São Martinho de Anta, com castanhas, vinho novo, carne, sardinhas e quadras ao santo.

E em Penafiel, as primeiras celebrações remontam ao século XVI. O historiador Coelho Ferreira considera que a centenária romaria de S. Martinho, naquela cidade, mantém a matriz original, como grande ponto de compra e venda de produtos agrícolas e vestuário para o inverno.

Depois de suspensa em 2020, devido à pandemia de covid-19, a romaria regressa e prolonga-se até dia 21, prevendo a organização que dezenas de milhares de pessoas acorram àquela cidade do distrito do Porto.

Em declarações à Lusa, o historiador explicou que o evento, por coincidir com o final de muitos trabalhos agrícolas, às portas do tempo frio, sempre serviu para o comércio de agasalhos, nomeadamente as samarras de Penafiel, e produtos agrícolas da época, com destaque para a castanha e o vinho verde novo.

A referência mais antiga ao evento, explicou, remonta a um documento de 1049, quando a feira se realizava na antiga paróquia de S. Martinho de Muazes, onde hoje ainda se situa a capela de Santa Luzia.

Em meados do século XVI, por altura da edificação da Igreja Matriz, dá-se a fusão de três paróquias da atual área da cidade de Penafiel: S. Martinho de Muazes, Espírito Santo e S. Bartolomeu de Louredo.

A designação da nova paróquia, contou, passou a ser S. Martinho de Arrifana, então um núcleo urbano em crescimento por estar a uma jornada do Porto (cerca de 30 quilómetros) e, por isso, ponto de paragem dos viajantes.

Já no foral de 1741 havia referências à importância da feira.

Por essa altura, indicou o investigador, foi também uma das maiores feiras de gado cavalar do país, tradição que prevaleceu muito anos, tendo o quartel militar da cidade e o exército como um dos principais clientes.

O historiador referiu, por outro lado, que o evento começou por ter um cariz religioso, dedicado ao padroeiro, para se transformar numa feira, sobretudo a partir do momento em que Penafiel, em 1741, passou a ser concelho, até alcançar o estatuto atual de uma das maiores romarias do país.

A componente de animação, assinala, também é antiga, embora tivesse moldes diferentes dos atuais.

A chegada do comboio a Penafiel, em 1875, conferiu um grande impulso ao certame. A partir desse altura, passou a haver mais pessoas na localidade para usufruírem da feira ao longo de 10 dias de muita animação e comércio.

Outro dado revelado pelo historiador sobre a história da festa de S. Martinho em Penafiel é que, além da paragem recente, em 2020, devido à pandemia de covid-19, a festa já esteve suspensa outras vezes no passado, também devido a questões sanitárias.

Numa dessas vezes, acabou por se realizar em abril, tradição que ainda hoje se mantém com o chamado S. Martinho pequenino realizado naquele mês.

Redação / Lina Santos com Lusa