Christine Lagarde recebeu a TVI no Banco de Portugal para uma entrevista exclusiva. Horas depois estaria presente no Conselho de Estado, ao lado do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Está em Portugal, que está em plena crise política. Sei que não quer comentar os pormenores desta crise, mas, em termos mais gerais, o que pode dizer sobre o impacto que a instabilidade política tem na economia e nos mercados financeiros e sobre como lidar com isso?

Antes de mais, agradeço a oportunidade de falar com os portugueses. E tem razão, não comento os assuntos internos, sobretudo no que toca à política. Muitas vezes perguntam-me, na Alemanha, o que penso da discussão sobre a coligação, e eu digo sempre que não interfiro, não comento. Isso é na Alemanha e em Portugal aplico o mesmo princípio. Mas é verdade que os intervenientes económicos, como investidores, empregadores, funcionários, consumidores, preferem a certeza à incerteza, e quanto menor for a incerteza, quanto mais curto for o período de incerteza, melhor para a economia.

Portanto, qualquer que seja a crise, a meta deverá ser a estabilidade.

Sem dúvida. E estabilidade é uma palavra que é muito apreciada por nós, no Banco Central, porque normalmente é esse o nosso mandato para com os europeus, enquanto Banco Central.

A economia portuguesa está a recuperar de uma recessão profunda causada pela pandemia. Como vê a evolução da economia portuguesa?

Tenho uma opinião muito positiva sobre a retoma em Portugal. Quando olho para os números e para a dinâmica, é claramente uma boa recuperação, e uma recuperação forte. Quando olhamos para o crescimento, para o emprego, para a participação, quando olhamos para o desemprego, para o investimento, todos esses números são sólidos e são, no geral, mais elevados do que a média da Zona Euro.

A recessão foi dura e atingiu fortemente a economia portuguesa, porque Portugal tem muita atividade de prestação de serviços e muito turismo para oferecer ao mundo, e essas atividades foram, claramente, fortemente atingidas pelo coronavírus, devido à necessidade de distanciamento social e confinamento. Portanto, a recessão foi dura, mas acho que a recuperação é forte e estamos a ver, depois da queda a pique, uma resposta muito forte. Provavelmente, ainda será maior, à medida que a retoma ganhar força.

Esta manhã, num discurso, fez um paralelo com terramoto de Lisboa. Vamos agora avançar com o plano de recuperação para a UE da próxima geração. O que devemos ter em atenção para podermos ser bem-sucedidos?

Fiz um paralelo com a determinação e a energia presentes após o terrível terramoto de 1755, porque penso que existem semelhanças entre essa época e a situação atual. O que ajudou Portugal em 1755 deverá ajudar o país agora. E o que foi isso? Foi determinação, coragem, a capacidade de adaptação e de levar a cabo reformas, de forma a ganhar a agilidade para enfrentar, naquela época, o início da revolução industrial que estava para vir. Agora, estamos a enfrentar uma revolução energética que tem de acontecer, e estamos a enfrentar uma transformação digital que está a mudar completamente a forma como operamos na nossa vida pessoal, social e também na economia. Acho que essa mesma coragem e resiliência deverá existir agora, tal como aconteceu em 1755.

Portugal necessita de mais reformas, além da reforma energética e da transição digital?

Portugal já levou a cabo grandes reformas, depois da grande crise financeira, e sei que foi doloroso, como é normal em todas as reformas, porque mudamos a forma como operamos e isso tem consequências. Creio que todos nós, europeus, teremos de nos transformar e adaptar, teremos de passar de uma política energética mista para uma nova política energética mista para combater as alterações climáticas. Teremos de melhorar as nossas capacidades na educação para conseguir adquirir as capacidades digitais necessárias para nos adaptarmos à digitalização das nossas economias. Portanto, não estou a sugerir que existe uma só reforma, mas sim que temos de estar constantemente a par dos desafios que se apresentam como, por exemplo, as alterações climáticas, a pandemia que acabámos de enfrentar e a transformação digital que está em curso.

Creio que Portugal só tem a beneficiar com ser membro da União Europeia, como tem acontecido recentemente. Se olharmos para as exportações portuguesas, elas são principalmente dentro da Zona Euro, e muito mais do que antes. Portugal ainda tem alguma margem para ganhar mais, como resultado disso. E, obviamente, implementar o plano submetido por Portugal - que foi um dos primeiros países a submeter o plano, já agora - à União Europeia, de forma a levar a cabo a transformação para energias verdes e a transição digital... Essa implementação será essencial. Não é fácil. É fácil escrevê-lo, mas depois é uma questão de fazê-lo, e esse é o grande desafio para todos nós, incluindo Portugal.

Todos nós, em Portugal também, enfrentamos a inflação, por causa dos preços da energia e da escassez de bens. Tem dito que ela é transitória. Não teme que não seja?

Quando olho para o atual aumento da inflação, ela tem três componentes-chave. O primeiro, que se desvanecerá no início de 2022, é de natureza muito temporária. Se olharmos, por exemplo, para a redução do IVA que foi seguida de um aumento de preços na Alemanha, o impacto nos preços e na inflação irá desvanecer no início de 2022. Houve também algum movimento de equilíbrio que teve que ver com a queda acentuada e a recuperação acentuada, em que se atinge um equilíbrio, mas, para isso, quando se cai, tem de se subir. Isso também irá desaparecer em 2022. Temos duas outras categorias. Uma tem que ver com os atuais preços da energia, e trata-se de uma combinação estranha de um aumento na procura, por estarmos a recuperar e todos querem energia, querem investir e desenvolver-se, mas face a essa procura, temos uma escassez de oferta devido a várias razões: razões geopolíticas, inventários baixos, um inverno rigoroso na China há um ano, etc. Portanto, a oferta não corresponde à procura e demorará algum tempo a estar, mas vai acontecer. Depois, a terceira categoria tem que ver com a recuperação. É a mesma coisa. Regredimos muito e recuperamos muito depressa. Há um ajuste que é difícil, devido à procura e à oferta. É aí que enfrentamos a escassez da oferta e a pouca capacidade de produção de que muito se fala. Porque existe muita procura e, ao mesmo tempo, as cadeias de fornecimento estão arduamente a apanhar o ritmo.

Então, destas três categorias, a primeira irá desaparecer na primeira metade de 2022. As outras duas vão gradualmente resolver-se através da sintonia entre procura e oferta. É mais ou menos isso que vemos, em termos de perspetiva de futuro, para a inflação.

A inflação está sempre ligada às taxas de juro. Nas últimas semanas, as taxas de juro estiveram um pouco mais altas do que antes. As taxas de juro vão aumentar, no futuro próximo?

A missão do Banco Central Europeu, neste momento, é garantir que as condições de financiamento continuam favoráveis e penso que é especialmente importante para as empresas, para as pessoas, para todos os setores da economia, claro, mas quando olho para as taxas de juro para o mundo empresarial, para as pessoas, quando se quer comprar uma casa e se tem uma prestação, continua a ser de 1,3%, 1,4%, o que é historicamente baixo, neste momento. Então, temos de garantir que a política monetária continua a alimentar a recuperação. Mas neste momento, achamos que as taxas de juro não são...

Deixe-me pôr isto desta forma: muitos dos nossos espectadores têm créditos à habitação e o que devem estar a pensar, ou a perguntar-se - ou a si -, é se o seu crédito vai ficar mais caro, ou quando é que o crédito vai ficar mais caro do que agora. O que pode responder-lhes?

Não estou a ver aumentos das taxas de juro no próximo ano. Em 2022, está fora de questão, nesse aspeto. Mas eu sugeriria que, neste momento, e no que prevemos para o futuro, com as medidas de política monetária que tomamos, as taxas de juro, ou seja, as condições favoráveis, irão continuar à disposição.

A sra. Lagarde, é uma mulher de fortes convicções, convicções duradouras, devo acrescentar. Uma delas é sobre o clima. Atualmente, os líderes mundiais estão reunidos em Glasgow, na COP26, e a opinião pública parece estar muito cética, porque há muitas palavras fortes, mas parecem faltar ações fortes. Também está cética?

Estou... entusiasmada pelos compromissos que se fizeram, mas também estou determinada a vê-los serem implementados no dia a dia, e a partir de agora, não em 2030 ou 2050. Temos de agir agora. E penso que cabe aos governos, aos parlamentos e aos legisladores tomarem as decisões certas para incentivar as abordagens certas, os comportamentos certos e as políticas certas, em termos da energia, sobretudo. Os bancos centrais podem apoiar, todos podem agir e já incluímos as alterações climáticas na nossa estratégia enquanto uma consideração fundamental que temos de ter em conta para a determinação da política monetária, para a avaliação da macroeconomia, para a avaliação de riscos, para os testes de esforço, para as garantias e para medir os riscos nos nossos balanços. Mas cabe ao Governo e ao Parlamento tomarem as grandes medidas para mudar, a partir de agora, para cumprirem esses compromissos que estão a fazer para 2030 e 2050.

De facto, o BCE está a agir, por exemplo, as empresas poluentes vão pagar mais pelos créditos do que as empresas “verdes”. Isto significa que o BCE é e devia ser um interveniente político?

Os bancos centrais têm de ser independentes e têm de cumprir a sua missão. O preço dessa independência é que não devíamos aventurar-nos para além dessa missão. Mas é algo específico das nossas funções, que é a estabilidade de preços, avaliar devidamente os riscos, geri-los corretamente, tendo em conta as alterações climáticas. E, enquanto pessoa, além de ser Presidente do Banco Central Europeu, estou muito interessada em que governos, parlamentos e todos os envolvidos tomem as decisões certas para combater as alterações climáticas o façam. E levantarei a minha voz quando puder, e se for conveniente.

Também levantou a voz em relação à igualdade de género, durante anos. É uma das mulheres mais poderosas do mundo. Vê-se como um símbolo?

Com toda a modéstia, sei que sou um exemplo para muitas jovens. Quando cheguei a Lisboa, uma das funcionárias do aeroporto disse-me: "A senhora é um exemplo para mim. Continue assim!" Muitas vezes, isso é um sinal de apoio e incentivo que guardo com muito carinho, quando as coisas se tornam difíceis, e às vezes são.

Quão difíceis? Ainda sente preconceito ou condescendência por parte dos homens?

Às vezes, há expressões dessa doença estúpida, sim.

Doença estúpida... Como é que lida com isso? O que lhes diz?

Com um grande sorriso na cara e sentido de humor. Porque é completamente inútil.

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Pedro Santos Guerreiro