O ano que agora começa vem cheio de incertezas: quando estará o mundo livre da covid-19 é a maior de todas, mas os diferentes países devem pensar numa lógica a longo prazo, onde as consequências económicas provocadas pela pandemia se devem prolongar para lá de 2021.

Num ano em que se exige ação firme para que se continue a conter a pandemia, mas em que, ao mesmo tempo, é necessário começar a impulsionar as economias, os atores políticos vão voltar a estar sobre brasas. O ano de 2021 é marcado por uma agenda política rica e variada, que vai mexer com os quadrantes de decisão em todo o mundo.

Logo no mês de janeiro há três momentos políticos de máxima importância.

UE e EUA com decisões fulcrais

No fim de semana de 14 e 15 de janeiro, a CDU de Angela Merkel vai a votos para escolher o novo presidente do partido, figura que será um putativo candidato a substituir a atual chanceler nas eleições federais que se realizam em 26 de setembro deste ano. Armin Laschet, Friedrich Merz e Norbert Röttgen são os nomes que se perfilam para subsitituir a líder dos democratas-cristãos, pelo que deveremos ouvir falar num deles na segunda metade do ano e, quem sabe, durante os próximos anos.

Nem uma semana depois acontece um ato simbólico de extrema importância. Joe Biden toma posse como 46.º presidente dos Estados Unidos da América (EUA) a 20 de janeiro, marcando um corte com a presidência de Donald Trump, ligada a uma América fechada e unilateral.

Antes disso ocorre nos EUA uma outra eleição quase tão importante, e que vai marcar uma linha definidora dos próximos quatro anos. A 5 de janeiro o estado da Geórgia vota para eleger os dois senadores que faltam.

Neste momento, o Partido Democrata de Joe Biden e Kamala Harris tem maioria na Câmara dos Representantes, mas para uma legislatura sem percalços, a nova administração precisará também do Senado. Com 98 dos 100 senadores eleitos, os republicanos têm, por agora, maioria, mas faltam atribuir os dois mandatos da Geórgia.

Caso esses dois senadores sejam eleitos pelo Partido Democrata, a câmara alta do Congresso fica com um empate entre mandatos (50 democratas e 50 republicanos). Neste cenário o desempate cabe ao vice-presidente em exercício, que, nos próximos quatro anos, será Kamala Harris. Assim, caso o Partido Democrata consiga eleger os dois senadores pela Geórgia, Joe Biden pode vir a ter uma presidência mais fácil de gerir. Em sentido contrário, projetos como a concessão de vistos de residência a imigrantes ilegais podem ter muito mais dificuldade em passar.

Depois da tomada de posse de Joe Biden será a vez de eleger outro chefe de Estado. Portugal sai à rua a 24 de janeiro para escolher o próximo Presidente da República. A julgar pelas sondagens que têm sido realizadas, Marcelo Rebelo de Sousa parte muito à frente, com o cenário mais provável a ser uma reeleição logo à primeira volta.

A luta nas Presidenciais faz-se, também, dos lugares que estão abaixo. Perceber se André Ventura terá um reforço político pouco mais de um ano depois de ser eleito como deputado pelo Chega será um barómetro importante para entender a evolução da direita mais conservadora. A força da direita irá também a escrutínio consoante a votação do candidato da Iniciativa Liberal, Tiago Mayan Gonçalves. No outro quadrante político, Ana Gomes (como independente), Marisa Matias (pelo Bloco de Esquerda) e João Ferreira (do PCP) medem forças à esquerda. Para as duas primeiras a grande luta será perceber se conseguem superiorizar-se a André Ventura, enquanto que o comunista tenta manter o partido ligado à máquina.

Ainda na Europa, os Países Baixos preparam-se para escolher um novo governo e novos representantes, com eleições gerais marcadas para 17 de março.

A 13 de setembro será a Noruega a ter eleições legislativas, com a Rússia a ter o mesmo tipo de sufrágio seis dias depois.

América Latina a votos

2021 será também um ano de importantes decisões políticas na América Latina. Começando pelo país mais a norte, o México terá eleições legislativas a 6 de julho, procurando um governo que estabilize o clima de tensão recorrente, sobretudo num país que continua a ser fortemente afetado pela pandemia.

Mais a sul, o Perú vai a eleições gerais a 11 de abril. O povo elege o novo presidente e o Congresso nessa data, sendo que também tenta sair da grave crise sanitária provocada pelo novo coronavírus.

Ainda na América do Sul, a Argentina terá eleições legislativas a 24 de outubro. Mergulhado numa grave crise financeira, em que tenta lidar com uma dívida pública muito elevada, o país das pampas escolhe o rumo político nos últimos meses do ano.

Ásia com testes de fogo

O ano de 2021 será importante a nível político para muitos países asiáticos. O Japão tem eleições gerais marcadas para 22 de outubro, onde serão escolhidos novos representantes para o povo, incluindo um novo governo.

Cada vez mais isolado no Médio Oriente, o Irão tem eleições presidenciais marcadas para 18 de junho. Ainda que a mais alta figura do Estado seja o Supremo Líder, o aiatolá Ali Khamenei, o novo presidente pode ser importante na gestão de relações externas, sobretudo com países como a Arábia Saudita, os EUA ou Israel.

Neste ponto entronca um dos grandes feitos de Donald Trump enquanto presidente norte-americano. O republicano orgulha-se de ter ajudado a serenar as relações israelo-árabes, normalizando o diálogo entre Israel e Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Sudão. A administração ainda em exercício chegou mesmo a admitir que a Arábia Saudita poderia ser o país que se segue.

É precisamente em Israel que decorrem, em dois momentos separados, as eleições legislativas e as presidenciais. A 23 de março será eleito um novo governo, enquanto que no verão de 2021 será a vez de se escolher o novo presidente. A primeira votação será crucial para perceber o estado político do país, quando o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, continua debaixo de fogo.

Mais para oriente, Hong Kong volta a ter eleições legislativas a 5 de setembro, um sufrágio que estava inicialmente marcado para julho de 2020, mas que foi adiado pelo governo regional, que se baseou na crise sanitária provocada pela covid-19. Estas eleições vão ter lugar cerca de dois anos depois do início de fortes e violentos protestos do povo de Hong Kong contra a predominância chinesa na ilha.

Calendário das eleições de 2021
Continente País Data Eleições
Europa Portugal 24 de janeiro Presidenciais
Europa Países Baixos 17 de março Legislativas
Europa Noruega 13 de setembro Legislativas
Europa Rússia 19 de setembro Legislativas
Europa Alemanha 26 de setembro Legislativas
Europa República Checa 8 e 9 de outubro Legislativas
América Perú 11 de abril Gerais
América Equador 11 de abril Gerais
América México 6 de julho Legislativas
América Argentina 24 de setembro Legislativas
Ásia Israel 23 de março Legislativas
Ásia Vietname 23 de maio Legislativas
Ásia Irão 18 de junho Presidenciais
Ásia Israel Verão Presidenciais
Ásia Hong Kong 5 de setembro Legislativas
Ásia Japão 22 de outubro Gerais
África Argélia Data a definir Legislativas
África Etiópia Data a definir Gerais
África Marrocos Data a definir Gerais
África Cabo Verde Data a definir Legislativas
África Cabo Verde Data a definir Presidenciais
África São Tomé e Príncipe Data a definir Presidenciais

Política fora das urnas

Como em todos os anos, não será apenas nas urnas que se vão fazer grandes decisões políticas. Começando por Portugal, 2021 promete ser um ano agitado em vários quadrantes. Saltando as Presidenciais referidas acima, importa perceber como se vão desenrolar os vários projetos deste Governo nas mais variadas pastas: como fica Eduardo Cabrita depois da "bronca" no SEF? Como evolui a situação da TAP? Que avanços tem a construção do novo aeroporto no Montijo? Como corre o plano de vacinação contra a covid-19?

Tudo questões que terão desenvolvimento este ano, e que também vão ser jogadas nos palcos da Justiça e da Economia. O processo do caso do assalto aos paióis de Tancos prossegue, sendo Azeredo Lopes, antigo ministro da Defesa, um dos visados. São também esperados desenvolvimentos no caso da morte de Ihor Homeniuk, pela qual estão acusados três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, num caso que tem feito correr muita tinta, e que deixou Eduardo Cabrita com uma posição instável no executivo.

Económica e financeiramente será um ano para João Leão mostrar o seu valor. É ainda incerto o verdadeiro impacto da pandemia nas contas portuguesas, mas a execução orçamental será, certamente, um grande desafio para o ministro das Finanças, que deve equilibrar as contas públicas ao mesmo tempo que injeta dinheiro na economia.

Grande parte desse dinheiro deverá chegar do Fundo de Recuperação e do Orçamento Plurianual para 2021-2017, o qual vai dar cerca de 1,8 biliões de euros aos Estados-membros da União Europeia, e do qual 45 mil milhões de euros podem chegar a Portugal.

Com este dinheiro o Governo vai tentar revitalizar os setores do turismo, hotelaria, restauração, e outros que tenham sido gravemente afetados pela pandemia. O objetivo é ajudar a estabilizar a dívida pública, ao mesmo tempo que se tenta controlar o desemprego.

Parte da aplicação virá no decurso do Orçamento do Estado para 2021, aprovado "a ferros", com votos favoráveis apenas do PS. Essa será uma das grandes lutas do Governo de António Costa: elaborar o mesmo documento para 2022, sendo que será quase certo o voto negativo de toda a direita, pelo que as negociações à esquerda vão voltar a ser cruciais. A geringonça há muito que partiu, e o executivo deve ter de voltar a negociar norma a norma com Bloco de Esquerda, PCP, PAN e com as duas deputadas não inscritas Cristina Rodrigues e Joacine Katar Moreira.

No plano internacional Portugal também assume papel de relevo. Será o nosso país a ter a presidência do Conselho da União Europeia no primeiro semestre do ano, apanhando a meio os processos de combate à covid-19, do Brexit e da ajuda financeira aos Estados-membros.

Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, esta será uma presidência em que "Portugal vai trabalhar por uma União Europeia mais resiliente, social, verde, digital e global".

Ainda lá fora continua o Brexit, longo e penoso processo de saída do Reino Unido da União Europeia, que se consumou a 31 de janeiro de 2020, mas que ainda deve ter mais episódios nos próximos meses.

Por definir estão vários acordos bilaterais, incluindo entre países e o Reino Unido, sendo que poderá passar por Portugal a mediação de algumas dessas conversas.

Política à portuguesa

O ano de 2021 vai ser importante para definir o espaço dos diferentes quadrantes ideológicos em Portugal. Estará o país mais virado à direita? Manter-se-à uma maioria de esquerda? Tudo indica que PS, Bloco de Esquerda e PCP continuem a representar a maioria dos portugueses.

Para estes três partidos será um ano de inícios, transições e decisões. O Governo ainda tem pela frente aquilo que se esperam ser mais três legislaturas, e a possibilidade de António Costa ser primeiro-ministro num terceiro mandato não está de fora, até porque constitucional e legalmente é possível, tendo sido uma hipótese falada nos bastidores do PS.

As guerras internas nos socialistas já começam a ganhar forma, e a relação entre António Costa e o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, tem ficado mais tensa ao longo dos tempos. O último episódio, relacionado com a reestruturação da TAP, marcou uma clara desautorização do líder do executivo ao seu governante.

O ministro queria a reestruturação limitada no Parlamento, pretendendo uma aprovação do plano para a companhia aérea por parte dos deputados. De seguida, António Costa afirmou que a função governativa pertence exclusivamente ao Governo, descartando o plano de Pedro Nuno Santos.

Mais à esquerda, o Bloco joga o poder no espaço político português. Atualmente a terceira maior bancada parlamentar na Assembleia da República, o partido liderado por Catarina Martins tem um teste de fogo já nas presidenciais. A votação na candidata Marisa Matias pode ser um barómetro para a atual influência dos bloquistas.

Já o PCP, e depois de um ano com várias polémicas relacionadas com eventos comunistas (como foram o Avante! e o Congresso), é um partido que viu a posição do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, reforçada no Congresso.

Afastada a sucessão nos comunistas, João Oliveira, João Ferreira e outros continuam a perfilar-se para suceder ao líder, que se mantém firme no cargo.

Também o Livre procura um lugar de melhor definição no panorama político. Depois da saída de Joacine Katar Moreira, o partido deixou de ter representação parlamentar, ficando com um vazio no espaço político. O ano que agora começa pode definir melhor o papel da deputada não inscrita e qual a verdadeira representatividade do Livre em Portugal.

Quem não se define como de esquerda ou de direita é o PAN. Depois do sucesso nas legislativas de 2015, em que elegeu um deputado, o Pessoas-Animais-Natureza conseguiu mais três mandatos em 2019, criando um grupo parlamentar com tamanho igual ao do CDS. Cristina Rodrigues saiu no início da legislatura, passando a deputada não inscrita, deixando o partido com três deputados representados.

O partido de André Silva continua sem definir bem as posições sobre temas como a Educação ou a Saúde, mas o novo aeroporto de Lisboa e outros temas ligados ao Ambiente ou Natureza (como a questão da caça ou os casos do hidrogénio e do lítio) prometem marcar à agenda.

Virando à direita, o PSD de Rui Rio deve continuar um ano de marcada cisão com o PS. Depois de António Costa ter recusado um bloco central com os sociais-democratas, o líder laranja entendeu a "tampa" como um "chega para lá" definitivo, passando a fazer uma verdadeira oposição ao Governo.

O PSD votou contra o Orçamento do Estado e tem sido mais agressivo na crítica ao Governo, ainda que tenha apoiado e sustentado os sucessivos estados de emergência que o Parlamento tem vindo a aprovar, sustentando a posição com base num bem comum.

O CDS também procura voltar a ganhar espaço na política portuguesa. Depois de perderem 14 deputados de 2015 para 2019, os centristas mudaram de líder para Francisco Rodrigues dos Santos, que sucedeu a Assunção Cristas após uma longa batalha política.

Perdendo espaço para os partidos à direita, o CDS tenta agora voltar a ter influência em Portugal. 2021 será, assim, um ano ano crucial para o partido.

Se muitos dos partidos mais tradicionais perderam influência, tudo indica que parte dela tenha ido parar a Iniciativa Liberal e Chega. O partido de João Cotrim Figueiredo está a realizar uma legislatura estável, e já conseguiu mesmo incluir um candidato a Belém para 2021. Não é esperado que Tiago Mayan Gonçalves consiga alcançar um grande resultado, mas fica uma indicação para a importância do partido no atual contexto político.

Situação diferente é a do Chega. André Ventura ganhou espaço mediático e lançou-se na corrida a Belém. Como objetivo define ficar à frente de Ana Gomes, o que será o mesmo que dizer que pretende o segundo candidato mais votado, logo atrás de Marcelo Rebelo de Sousa. A nível parlamentar, o partido quer reforçar a influência do deputado único que elegeu, e já conseguiu entrar no parlamento regional dos Açores, forçando o PSD a aceitar um acordo para conseguir governar no arquipélago.

António Guimarães