A combinação de terapêuticas que foi aplicada a Donald Trump, quando se confirmou que estava infetado com o vírus SARS-CoV-2 não está disponível para o comum dos norte-americanos. Na verdade, Donald Trump poderá mesmo ser o único até agora a ter recebido o tratamento que lhe foi aplicado contra a covid-19. O tratamento do presidente está a causar polémica e, de acordo com especialistas, podem tirar-se conclusões de que os médicos que acompanham Trump consideraram que a situação dele era severa e que corria risco de vida.

Ainda antes de ser hospitalizado, na sexta-feira, Donald Trump foi tratado com uma terapia experimental, à base de anticorpos, que terá como função reduzir o nível de vírus no organismo. O medicamento, chamado Regeneron, alcançou resultados promissores durante o período experimental, que envolveu 275 doentes. Mas não está ainda disponível no mercado e nem sequer recebeu autorização da Food and Drug Administration (FDA), o organismo que regula o comércio de medicamentos nos Estados Unidos.

De acordo com a CNN, a empresa que fabrica o Regeneron, a Biotech, diz ter disponibilizado o medicamento após ter recebido um pedido de “uso compassivo” por parte dos médicos que acompanham o presidente Donald Trump.

As diferenças começam aqui: para o comum dos cidadãos norte-americanos, o acesso a um medicamento que ainda não foi autorizado para FDA, através de um pedido de “uso compassivo”, é normalmente um processo muito demorado e que obedece a critérios muito específicos. Segundo a Casa Branca e os médicos que acompanham o presidente, Trump recebeu o tratamento na sexta-feira, um dia depois de ter sido testado positivo.

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A rapidez de resposta ao pedido de Trump está a causar revolta na comunidade científica dos Estados Unidos. Em declarações à CNN, a epidemiologista Seema Yasmin, reconhece alguma naturalidade no facto de o presidente do país ter alguma diferenciação no tratamento, mas não deixa de lembrar:

 Há quase 210.000 americanos que morreram nos últimos meses porque a resposta à pandemia foi má. E eles certamente não tiveram acesso a esse tipo de tratamento.”

Além da terapia experimental com anticorpos, Trump foi ainda tratado com remdesivir e dexametasona.

O presidente pode ter sido o único doente no planeta a receber esta combinação de terapêuticas”, sublinha Jonathan Reiner, professor de Medicina na Universidade George Washington.

Também o remdesivir não recebeu ainda a aprovação da FDA para o tratamento da covid-19, mas os médicos de Trump conseguiram uma autorização especial, mais uma vez em tempo recorde, para o administrar ao presidente.

Este tem sido um dos medicamentos mais polémicos em ensaios clínicos para o tratamento da covid-19. Se por um lado as experiências mostram uma elevada capacidade de recuperação dos doentes infetados, por outro, têm também apontado para efeitos secundários sérios, como elevados níveis de toxicidade no fígado e nos rins.

O remdesivir é administrado por via intravenosa e durante cinco dias seguidos. Por isso, é fundamental que o paciente seja hospitalizado para receber a terapêutica de forma controlada. Contudo, Donald Trump esteve hospitalizado apenas durante o fim-de-semana e teve alta do hospital esta segunda-feira. A continuação do tratamento será feita na Casa Branca, onde existe uma unidade médica e “onde estará rodeado de cuidados médicos de classe mundial”, como explica Sean Conley, um dos médicos da equipa que acompanha Trump.

A dexometasona também é aplicada normalmente com grandes restrições. Este medicamento está disponível no mercado e é bastante acessível. Trata-se de um corticoesteroide de grande eficácia em processos inflamatórios, mas reduz drasticamente o funcionamento do sistema imunitário. Assim, a dexometasona não é recomendada no tratamento da covid-19, a não ser em situações muito severas e como último recurso.

Há relatos de casos médicos em que os pacientes beneficiaram da dexometasona no tratamento da covid-19, até apresentaram melhoras, mas acabaram por morrer, menos de um mês depois.

Jonathan Reiner, professor de Medicina na Universidade George Washington, lembra que 23% dos pacientes que participaram em experiências clínicas de tratamento da covid-19 com dexometasona acabaram por morrer no espaço de 28 dias. Ou seja, “quase um quarto dos pacientes tratados com dexometasona” acabaram por morrer.

As conclusões que podemos tirar desta tripla terapia é que os médicos do presidente consideraram que a sua condição clínica era grave e corria perigo”, diz Jonathan Reiner.

Os médicos de Trump sublinham que ele estava bem para receber alta hospitalar, mas não escondem que pode haver uma reversão do quadro clínico do presidente dos EUA. “Por isso é que estamos cautelosamente otimistas e nos mantemos alerta, porque estamos a pisar em terreno desconhecido quando falamos de um paciente que recebeu as terapias que ele recebeu tão cedo e em tão curto espaço de tempo”, admitiu Sean Conley, citado pela CNN.

Os médicos do presidente parecem, assim, mais cautelosos que o próprio, que, mal teve alta, fez publicar um vídeo em que apelava “não tenham medo da covid-19!” e garantia sentir-se “melhor do que há 20 anos”.

Manuela Micael