Nilz Melzer, um especialista das Nações Unidas em tortura, afirma que Julian Assange apresenta traços de quem foi submetido a tortura psicológica durante um longo período. O encontro entre os dois aconteceu a 9 de maio, numa prisão de alta segurança de Londres.

Para o encontro com Assange, Melzer fez-se acompanhar de dois médicos, com o relatório da visita a revelar um homem agitado, sob stress severo e incapaz de cooperar com a justiça.

O nosso parecer é que o senhor Assange mostra todos os sintomas de uma pessoa que foi exposta a tortura psicológica por um longo período de tempo. O psiquiatra que me acompanhou disse que o estado de saúde dele era crítico”, disse Melzer à Reuters

A revelação surge depois de Julian Assange ter faltado a uma audiência judicial por vídeo, que visava tratar da extradição do australiano para os Estados Unidos, onde está acusado por crimes de espionagem, no seguimento das divulgações feitas pela Wikileaks. O advogado de Assange, Gareth Pierce, já tinha dito que o cliente estava doente, e que não poderia comparecer à audiência desta quinta-feira.

Melzer confirma a ideia de que o estado de saúde de Assange é muito frágil para se apresentar a audiências, afirmando que a tortura a que o australiano foi sujeito foi deliberada: “O senhor Assange foi deliberadamente exposto a vários anos de tortura, de forma progressivamente cruel, desumana e degradante, o que só pode ser descrito como tortura psicológica”.

Não estamos a falar de acusação, mas de perseguição. Isso significa que o poder judicial, instituições e os procedimentos estão a ser deliberadamente adulterados por motivos superiores”, continuou Melzer

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Jeremy Hunt, já reagiu, criticando o relatório: “Isto está errado. Assange escolheu esconder-se na embaixada [do Equador em Londres] e sempre foi livre de sair e enfrentar a justiça”. Recorde-se que Julian Assange esteve sob asilo político do Equador entre 2012 e 2019. A 11 de abril, o novo chefe de estado do Equador decidiu revogar o asilo ao australiano, permitindo à polícia britânica que prendesse Assange.

O escândalo da Wikileaks rebentou em 2010, quando Julian Assange divulgou imagens e documentos relacionados com a presença norte-americana na guerra do Iraque. 

Desde então que Assange é acusado de 18 crimes de espionagem, devido à divulgação de dados confidenciais dos Estados Unidos. Para Melzer, a extradição de Assange poderá resultar num julgamento político, com violações graves dos direitos humanos.

Além dos crimes nos Estados Unidos, Julian Assange também está acusado de crimes de violação na Suécia, num processo que foi recentemente reaberto.