A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, considerou haver “ruído a mais” e “explicações a menos” sobre o furto e reaparecimento de armas em Tancos, garantindo que não alimenta questões “disparatadas”.

“Eu não colaborarei em nada para criar ruído. Houve um roubo de armas. É grave, deve ser investigado. Devemos saber tudo o que aconteceu e não esquecer o que aconteceu no meio de um nevoeiro de coisas que serão mais graves e outras que serão simplesmente disparatadas”, sustentou Catarina Martins quando questionada pelos jornalistas sobre se partilha da opinião do primeiro-ministro sobre a “ansiedade” do Presidente da República.

A líder do BE defendeu, contudo, que são precisos esclarecimentos o mais depressa possível em toda a investigação do caso de Tancos, insistindo que “tem existido ruído a mais e explicações a menos”, mas sem especificar.

“Tenho visto na comunicação social dizer várias coisas sobre esta matéria e parece que nos esquecemos que existiu um roubo de armas às nossas Forças Armadas. E esse é o primeiro problema que nós temos, os outros também mas, seguramente, ruído a mais com questões laterais, às vezes impedem-nos de resolver o problema que temos: como é que foi possível acontecer este roubo em Portugal? Quem são os responsáveis? O que é que aconteceu às armas?”, questionou a coordenadora do BE.

Catarina Martins apelou depois às Forças Armadas para colaborarem com a investigação em benefício da sua “própria legitimidade democrática”.

“O apelo que eu faço é que a investigação aconteça, que decorra da melhor forma e que as próprias Forças Armadas colaborem nesta investigação para se chegarem a conclusões porque até a sua própria legitimidade democrática, a forma como o país olha para as Forças Armadas, precisa de esclarecimentos completos, o mais depressa possível e sem ruído”, sublinhou.

Na Assembleia da República, foi hoje anunciado que a comissão parlamentar de inquérito ao furto de armas em Tancos vai tomar posse no próximo dia 14.

Catarina Martins adiantou que o BE admite questionar o primeiro-ministro sobre o assunto, caso seja necessário.

“Havendo perguntas a fazer, elas devem ser feitas. O BE viu sempre com naturalidade a participação de primeiros-ministros em comissões de inquérito. Não será a primeira vez, não será a última. Os primeiros-ministros podem responder por escrito, é uma prerrogativa que lhes assiste e nós achamos natural que assim seja. Não há nenhum limite”, disse ainda Catarina Martins.

O furto de material militar dos paióis de Tancos foi revelado em 29 de junho de 2017 e a recuperação da maior parte do material foi divulgada pela Polícia Judiciária Militar (PJM), em comunicado, no dia 18 de outubro de 2017, na Chamusca, a cerca de 20 quilómetros de Tancos.

A investigação do Ministério Público sobre o aparecimento do material furtado, designada Operação Húbris, levou à detenção para interrogatório de militares da PJM e da GNR.

O caso levou já à demissão do anterior ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, em 12 de outubro, invocando a necessidade de evitar que as Forças Armadas fossem prejudicadas pelo “ataque político” e as acusações de que afirmou estar a ser alvo.

O chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, pediu também a resignação, apenas dois dias depois da tomada de posse do novo ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho.

Em 25 de setembro, a Polícia Judiciária deteve o diretor e outros três responsáveis da PJM, um civil e três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé.

Segundo o Ministério Público, em causa estão "factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas".

Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.