Cada caçador terá pago 1.500 euros para participar na montaria organizada na semana passada, na Azambuja, e que terá durado dois dias.

Ao que a TVI conseguiu apurar, participaram 16 caçadores de nacionalidade francesa e espanhola. Ora, fazendo contas, o evento terá rendido cerca de 48 mil euros à organização "Monteros de la Cabra".

Entre os 540 animais mortos, encontravam-se veados, gamos e javalis. 

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A Federação Portuguesa de Caça (FENCAÇA) repudiou o sucedido, mas adiantou que a caçada terá ocorrido para poder ser construída uma central fotovoltaica no local.

De acordo com a federação, existe um projeto de uma “mega central fotovoltaica” com mais de 750 hectares (ha) para aquele local, no distrito de Lisboa, que se encontra em processo de consulta pública.

Associações ambientais e de defesa dos animais exigem responsabilizações 

A Confederação Portuguesa das Associação de Defesa do Ambiente (CPADA) e a Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA) exigiram esta quarta-feira a identificação e responsabilização dos responsáveis pela “execução brutal” realizada na Azambuja.

A CPADA e a LPDA “repudiam veementemente a ação de abate massivo de veados e javalis na Herdade da Torre Bela” no passado fim de semana e pedem que quem autorizou ou não impediu a sua ocorrência seja também identificado.

As entidades dizem em comunicado conjunto "não aceitar o desrespeito descarado pelos direitos consignados na legislação, sem que sejam encontrados e responsabilizados os responsáveis por esta atrocidade”.

De acordo com a CPADA e a LPDA foram desflorestados mais de 600 hectares de floresta, no âmbito de um projeto de energias renováveis, que servia de habitat a extensas populações de animais, incluindo veados e javalis, que ficaram sem abrigo e pasto para se alimentarem.

A CPADA e a LPDA afirmam não compreender “que uma ação de destruição do coberto vegetal desta envergadura possa ocorrer em plena consulta pública que só termina a 20 de janeiro” e acrescentam que isso “arrasta consigo atos de vandalismo sobre as comunidades animais, quando não é acautelada a transferência das suas populações para outros locais apropriados”.

Não existem alternativas para percorrer o caminho da neutralidade carbónica, que possam garantir a preservação dos ecossistemas existentes, os direitos dos animais e o cumprimento da legislação nacional?”, questionam no comunicado.

Na segunda-feira, o Instituto da Conservação da Natureza abriu um processo para averiguar junto da Zona de Caça Turística de Torre Bela, concessionada à Sociedade Agrícola da Quinta da Visitação, SAG, Lda., "os factos ocorridos e eventuais ilícitos" relacionados com estes abates.

Recorde-se que o ministro do Ambiente deu ordem de revogação imediata da licença de caça turística da Quinta da Torrebela, na Azambuja, onde foram mortos 540 veados e javalis, tendo anunciado que vai avançar com uma queixa no Ministério Público por indícios de crime contra a preservação da fauna.

Em comunicado, o Ministério do Ambiente e da Ação Climática informou que, em articulação com o ICNF, "procederá de imediato a uma participação junto do Ministério Público sobre os acontecimentos na Herdade da Torrebela, no concelho da Azambuja".

O Ministério do Ambiente revela ainda que, no início do ano, irá convocar o Conselho Nacional da Caça para "se realizar uma reflexão sobre a prática de montarias em Portugal. É entendimento do Ministério que são necessárias alterações à lei para impedir que os vis acontecimentos relatados se repitam", esclarece a nota da tutela. 

PEV questiona Governo, chocado com caçada e “massacre” de 540 animais

O Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) afirmou-se “chocado” com o “verdadeiro massacre” de 540 veados e javalis numa caçada na herdade da Torre Bela, Azambuja, e questionou o Governo sobre a fiscalização a este tipo de montarias.

Numa pergunta enviada ao Ministério do Ambiente, a deputada do PEV Mariana Silva classificou de “condenável” uma caçada que pode ser apelidada de “um verdadeiro massacre de veados e javalis”, 540 no total, e as suas imagens que chocam “pela violência e exibicionismo do ato, pela ostentação” e, “sobretudo, pela sensação de impunidade associada ao ato”.

Choca-nos, e tudo leva a crer que assim foi, que as autoridades competentes tivessem conhecimento da ocorrência através da comunicação social, sem que tenha sido dado qualquer parecer ou autorização pelo organismo que tutela a caça para que esta atividade possa ter tido lugar. Ao que tudo indica nem antes, nem depois, da contabilidade feita ao número de animais abatidos”, lê-se na pergunta dirigida ao Ministério do Ambiente, através da Assembleia da República.

O PEV quer saber “se no plano de ordenamento e exploração cinegética” da zona de caça da herdade da Torre Bela, concelho da Azambuja, permite “abater tantos animais e se a autoridade responsável, nomeadamente o Instituto de Conservação da Natureza (ICNF), aprovou este plano”.

Cátia Esteves / com Lusa