Durante o julgamento relativo ao caso de homicídio de Valentina, a criança de nove anos que foi torturada e morta pelo pai e pela madrasta, a mãe descreveu a relação que a criança tinha com o agressor.

Sónia Fonseca afirma nunca ter suspeitado que o pai tivesse comportamentos agressivos ou sexuais com Valentina e explica que o suspeito só teve conhecimento da Valentina após esta ter nascido.

Valentina e o pai começaram a desenvolver uma relação quando a criança tinha um ano, altura quando começou a pernoitar em casa de Sandro Bernardo.

Depois de cerca de três anos sem manterem contacto, Márcia, a madrasta, procurou a menina e Valentina começou a dormir em casa do pai de 15 em 15 dias e, mais tarde, durante todos os fins de semana.

Em tribunal, a mãe sublinha que Valentina regressava da casa do pai contente. “Era a minha Márcia, o meu pai”, terá dito numa ocasião.

Quando o país entrou no primeiro confinamento geral, em março, Valentina começou a residir em casa do pai, porque a mãe trabalhava numa cafetaria e estava em contacto com várias pessoas, podendo gerar potenciais contágios perigosos para a filha.

 

Questionado pela procuradora se estava em contacto com a filha durante o confinamento, Sónia Fonseca explica que falou “uma ou duas vezes”, mas que Valentina não gostava de conversar por chamada. “Recebia e-mails e reencaminhava depois”, disse, destacando que falava pouco com o ex-companheiro e que estava mais à vontade para falar com a madrasta.

Um desses dias, Sónia conta que Valentina lhe ligou e disse :“Então, mãe, ciau, beijinhos. És uma chata. Gosto muito de ti”. Este terá sido o último contacto que teve com a filha antes de a menina ter sido encontrada morta.

Foi a minha mãe que me contou. Fui logo para Atouguia da Baleia (Peniche). Falei com a Márcia. Estava nervosa, preocupada, não sabia como a criança tinha desaparecido. Nesse dia não me lembro se falei com Sandro...penso que sim.”, descreveu Sónia, acrescentando que procurou pela filha com o seu companheiro e amigos.

Esta não foi, porém, a primeira vez que Valentina desapareceu: “Aos 8 anos saiu de casa do pai. Foi encontrada por um senhor da PSP de Peniche, vestida com um pijama, casaco e sapatilhas. Disse que tinha saudades da mãe. Jantei com ela e ficou em casa do pai por vontade própria”.

 

 

Nuno Ramos, irmão do pai acusado de homicídio de Valentina, sustenta que nunca suspeitou de qualquer agressão à menina cometida pelo pai, ou pela madrasta.

Nunca vi agressão com nenhuma delas. Tanto a Márcia como o meu irmão tratavam bem da Valentina”, diz o irmão de Sandro.

Nuno conta que Valentina era uma menina muito quieta e obediente e que soube do seu desaparecimento pelo irmão.

No dia do desaparecimento, ligou a Sandro para oferecer a sua ajuda nas buscas. “Andei com o meu irmão à procura da Valentina. Ia eu a conduzir. Na minha cabeça batia certo o desaparecimento porque isto já tinha acontecido antes”, afirma.

Após saber da notícia da morte de Valentina, Nuno não falou mais com Sandro e só recebeu novidades do seu irmão, através de uma carta enviada para toda a família, onde acusava Márcia de ter cometido o crime.

Toda a gente conhecia o Sandro. Sabem o coração que ele tinha. Como ele tratava os filhos, os familiares. Era muito presente quando havia festas, Natal. Fomos perdendo o Sandro nessas ocasiões até perdermos por completo”, descreve.