Portugal já administrou pelo menos 30 doses da vacina da AstraZeneca a cidadãos maiores de 70 anos, segundo um relatório do Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla original), divulgado esta quarta-feira, que detalha pormenores sobre a vacinação na União Europeia.

Recorde-se que, de acordo com a norma da Direção-Geral da Saúde que está em vigor, esta vacina devia ser preferencialmente dada só a pessoas até aos 65 anos. Uma recomendação que se estendeu a outros países europeus, uma vez que, no ensaio da AstraZeneca, não foram avaliados suficientes casos de maiores de 65 anos para permitir tirar conclusões da eficácia da vacina nesta faixa etária.

Apesar disso, a mesma norma da DGS refere que "em nenhuma situação deve a vacinação de uma pessoa com 65 ou mais anos de idade ser atrasada" se só estiver disponível esta vacina. Ou seja, se faltarem doses da Moderna ou da Pfizer, admitir-se-ia a administração da vacina da AstraZeneca aos mais idosos.

O especialista em vacinação do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa (IMM), Miguel Prudêncio, admite que possa ter sido esse o caso nas 30 doses reportadas pelo ECDC. Todavia, afirma não estar preocupado com a administração da vacina da AstraZeneca em cidadãos maiores de 65 anos.

Segundo o especialista, o surgimento de novos dados, que comprovam a segurança do produto naquela faixa etária, apontam que os reguladores e autoridades devem rever as atuais recomendações em breve. Aliás, a Agência Europeia do Medicamento já o fez.

É possível dizer com segurança que a vacina [da AstraZeneca] é eficaz nestas idades", afirma Miguel Prudêncio.

Para Miguel Castanho, também ele investigador no IMM, esta situação terá decorrido de alguma falha do processo, "seja porque houve mau planeamento, ou porque se estragaram outras vacinas". Ainda assim, o especialista vinca que é preferível vacinar os grupos prioritários com AstraZeneca do que não vacinar de todo.

Adicionalmente, Miguel Castanho entende que, mesmo que a vacina da AstraZeneca passe a ser recomendada aos maiores de 65 anos, devem ser as vacinas da Pfizer e da Moderna as primeiras a ser aplicadas nesta faixa etária, uma vez que conferem uma maior eficácia.

É absolutamente racional que se aplique nas pessoas mais velhas a vacina que dá mais garantias", referiu.

Esta sexta-feira, António Costa admitiu que, como a vacina da AstraZeneca não é recomendada para os maiores de 65 anos, "não conseguiremos alcançar, até ao fim de março, o objetivo de vacinação suficiente de pessoas entre os 65 e os 79 anos, com comorbilidades associadas".

O que estão a fazer os outros

Portugal até foi dos últimos países a emitir uma recomendação oficial relacionada com o assunto. Antes disso, Dinamarca, França ou Alemanha surgiram rapidamente a desaconselhar a vacinação em maiores de 65 anos.

Se em relação a países como França ou Alemanha não existem dados disponíveis, no mesmo relatório do ECDC, na Dinamarca há o registo de apenas seis casos de vacinação com AstraZeneca, todos eles abaixo dos 80 anos.

Já na Áustria, que também não recomenda esta vacina a maiores de 65 anos, foram já dadas 143 doses da vacina da AstraZeneca, muitas delas em pessoas acima dos 80 anos, e cinco delas com vacina de segunda dose.

Na Bélgica, a recomendação foi ainda mais exigente, e exclui a vacina da AstraZeneca para cidadãos maiores de 55 anos. O país parece estar a seguir o plano quase à risca: apenas seis doses foram administradas a cidadãos maiores que essa idade, sendo que todas elas foram dadas pessoas com menos de 70 anos.

Em sentido contrário vem a Irlanda, um dos países que também desaconselharam, mas que acabou por recorrer a esta vacina. Foram 73 as doses administradas a pessoas maiores de 70 anos no país, 12 das quais a cidadãos maiores de 80 anos.

Já na Polónia, que também desaconselhou a vacina a maiores de 65 anos, foram registados 20 casos de vacinas administradas a pessoas com mais de 70 anos. Destes, 12 foram em cidadãos com mais de 80 anos.

O que está em causa

Em causa está o fraco conhecimento científico sobre qual o verdadeiro efeito da vacina desenvolvida pela farmacêutica britânica, uma vez que os ensaios clínicos não foram realizados com participantes suficientes desta faixa etária.

Esse mesmo desconhecimento levou a que muitos países, tal como fez Portugal, desaconselhassem a toma da vacina para os mais velhos. Ainda assim, tanto a Organização Mundial de Saúde como a Agência Europeia do Medicamento recomendaram esta vacina para os maiores de 65 anos.

Chegada a Portugal em fevereiro, a vacina da AstraZeneca foi administrada a uma pessoa na faixa etária 70-79 anos na primeira semana do mês (quinta semana do ano). Na semana seguinte o cenário repetiu-se, e na semana passada (a sétima do ano), foram 21 as doses de vacina da AstraZeneca administradas naquela faixa etária. Também na última semana, sete pessoas da faixa etária 80-89 anos receberam uma dose da mesma vacina.

Refira-se ainda que, na faixa etária dos 60-69 anos, foram já administradas 12.583 vacinas desta farmacêutica, não havendo dados concretos sobre as idades para que foram.

De todas estas 12.613 vacinas administradas a cidadãos nacionais maiores de 60 anos, apenas uma serviu para segunda dose.

TVI24 tentou contactar a task-force, que está responsável pela coordenação da vacinação em Portugal, mas não obteve resposta. Quando confrontado com esta situação, o almirante Gouveia e Melo já tinha admitido a admistração da vacina da AstraZeneca a maiores de 65 anos.

"Se se mantiver uma escassez e esta vacina for uma alternativa , claro que sim", disse, na altura, numa entrevista na TVI.

Depois da recomendação favorável da Agência Europeia do Medicamento, o coordenador da task-force atribuiu ao Infarmed e à DGS a decisão. A TVI24 também contactou o Infarmed e a DGS, mas ainda não obteve resposta.

Ao todo, Portugal recebeu, desde a primeira semana de fevereiro, 177.600 vacinas da AstraZeneca, tendo administrado 50.212, cerca de 28% do total recebido, o que está acima da média da União Europeia.

Uma perspetiva genérica

No global da vacinação, é a vacina da Pfizer, desenvolvida em parceria com a BioNTech, que mais doses tem administradas em Portugal. Seria de esperar este cenário, até porque foi a primeira a ser aprovada. Ao todo, foram administradas 362.846 vacinas de primeira dose, às quais acrescem outras 246.587 segundas doses.

Em suma, a vacina da Pfizer é responsável por 76% do total de doses de vacinas administradas em Portugal. Esse número acresce para 95% quando falamos apenas da segunda dose.

Impressionante é também a utilização que se tem dado a esta vacina. Das 611.130 doses recebidas, Portugal administrou 609.439, um rácio que está muito perto dos 100%, bem acima daquele verificado nos dados respetivos à AstraZeneca.

Estes são números esperados, uma vez que a vacina da Pfizer chegou a Portugal três semanas antes da da Moderna, e mais de cinco semanas antes da da AstraZeneca.

Os dados da vacina da Moderna apontam para uma utilização global de 53%. Das 42 mil doses recebidas por Portugal, foram já administradas 22.523, cerca de mil de segunda dose.

Refira-se que esta farmacêutica norte-americana desde cedo alertou para uma baixa capacidade de produção inicial, até porque se trata de uma empresa pequena, sobretudo quando comparada com as outras concorrentes já aprovadas.

Vacinação em Portugal
Farmacêutica Faixa Etária 1.º Dose 2.ª Dose
Pfizer 18-24 anos 10.344 7.785
Pfizer 25-49 anos 123.497 101.356
Pfizer 50-59 anos 55.981 44.241
Pfizer 60-69 anos 32.688 25.429
Pfizer 70-79 anos 22.841 15.225
Pfizer 80-89 anos 117.316 52.470
Moderna 18-24 anos 771 110
Moderna 25-49 anos 7.111 1.397
Moderna 50-59 anos 1.850 120
Moderna 60-69 anos 1.109 181
Moderna 70-79 anos 638 47
Moderna 80-89 anos 8.936 0
AstraZeneca 18-24 anos 2.361 0
AstraZeneca 25-49 anos 23.583 4
AstraZeneca 50-59 anos 11.652 1
AstraZeneca 60-69 anos 12.583 1
AstraZeneca 70-79 anos 23 0
AstraZeneca 80-89 anos 7 0

Cumprem-se este sábado dois meses desde que foi administrada a primeira dose de vacina contra a covid-19 em Portugal. Na altura, apenas o produto da Pfizer tinha sido aprovado pela União Europeia. Passado esse período, e com a aprovação das vacinas da AstraZeneca e da Moderna pelo meio, o país leva já mais de 797 mil doses de vacina administradas, 258 mil das quais de segunda dose, o que significa que esse é o número de pessoas já imunizadas contra o novo coronavírus.