Mais alguém seguiu a longa série de debates com a mesma dúvida, fosse qual fosse o elenco da noite: como é que determinado candidato se vai sair no confronto com Ventura?

Assumindo que não estou sozinho nisto, grande parte desta curiosidade terá a ver com o espetáculo pipoqueiro e desconcertante que André Ventura monta de cada vez que vê um holofote, mas há outra parte tem a ver com o reconhecimento de que o líder do Chega ganhou uma relevância e capacidade de influência no espaço político e mediático que vai muito para além do seu real valor de mercado ou da profundidade do seu pensamento político.

Ventura criou uma identidade elástica que lhe permite dizer tudo e o seu contrário, que é suficientemente escorregadia para que uma etiqueta lhe fique colada à cara e opaca quanto baste para que seja difícil conhecer os seus reais propósitos. Mistura-se tudo isto com o jeito insidioso de se instalar onde os outros não ousam ir e temos candidato instantâneo, que ocupa o espaço vazio do populismo e da extrema-direita e de outros campos ideológicos, onde se vai encaixando conforme as conveniências.

É um jogo do gato e do rato com os limites da democracia que tem tanto de perigoso (para uma maioria) como de sedutor (para uma minoria crescente). E como isto é novo, não sabemos ainda lidar com ele (e ele explora essa fragilidade em nós, os que atuam no espaço político e mediático). Mas também já não podemos ignorá-lo.

Verdade seja dita, a esquerda foi muito rápida a reconhecer isto. E é, por isso, surpreendente que de todos os candidatos que trazem o cravo ao peito, só Ana Gomes tenha sabido enfrentar Ventura. Fê-lo com a vantagem de ter aprendido com os erros dos outros, é certo, mas para uma candidata que não tem sido particularmente forte em debates, é um feito e é uma surpresa.

Numa altura em que as sondagens os dão taco-a-taco, para o jogo do desempate a socialista trouxe um pouco de Kamala Harris, para travar interrupções e um pouco de Marcelo na separação das águas. Esteve particularmente eficaz no desmontar da “ditadura das pessoas de bem”,  também quando chamou à conversa “a marca de uma vergastada da PIDE na cara”, para puxar das credenciais democráticas,  ou quando se disse “mãe e avó de sete netos” para afastar as insinuações venenosas que Ventura lhe quis colar.

Vinha preparada, trazia escudo para quase todos os ataques e até foi a primeira a disparar uma das balas do adversário (as referências a José Sócrates) para esvaziar essa investida. Mas isso também mostrou que Ana Gomes trouxe um pouco de André Ventura para o debate, com alguns dos mesmos truques na manga.

Apesar de não ter saído queimada, combater o fogo com fogo foi o seu ponto fraco e só não deixou marcas porque o adversário trazia um argumentário (ainda mais) previsível e repetitivo.

Ao quinto debate, Ventura insistiu num discurso que já não tem sumo e não conseguiu assim o passeio no parque com que, provavelmente, contava. Ainda assim, manteve a sua maior concorrente por perto, e assegurou que esta vai continuar a ser a corrida destas eleições. Quem quer saber do vencedor. A emoção está toda no segundo lugar.

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Pedro Benevides