O PSD levou o caso Tancos ao Parlamento, no último debate quinzenal antes da apresentação do Orçamento do Estado para 2019. Depois de o ex-chefe de gabinete do ministro da Defesa ter vindo esta quarta-feira admitir, pela primeira vez, que recebeu documentos sobre a recuperação das armas roubadas de Tancos e que foram entregues hoje no Departamento Central de Investigação e Ação Penal [DCIAP], o líder da bancada social-democrata quis saber se o primeiro-ministro e o ministro da Defesa têm conhecimento dessa documentação. "Não", nem um nem outro, disse António Costa.

Não, não tenho conhecimento do documento entregue hoje no DCIAP. [E sabe se ministro da defesa tinha conhecimento?] A informação que tenho é que não tinha conhecimento".

“A documentação verdadeira foi entregue hoje no início da tarde, no DCIAP, pelos serviços do meu advogado”. Foi isto que disse à RTP o tenente-general Martins Pereira.

Perante a resposta de António Costa, o deputado social-democrata Fernando Negrão considerou "estranho, muito estranho, que o chefe de gabinete não tenha transmitido a informação ao ministro da Defesa". Costa respondeu com uma pergunta, em jeito de insinuação:

Como é que o senhor sabe ou não que o documento é importante? Gostava de saber o que é que o senhor deputado sabe e não nos quer contar. Haveremos todos de saber um dia o que é que cada um sabia sobre esta história de Tancos".

Sobre os desenvolvimentos neste caso, o primeiro-ministro disse que a informação de que dispõe é que "o tenente general Martins Pereira entregou ao órgão competente [a documentação], reafirmando que (...) não descortinou qualquer irregularidade na ação da polícia militar"

Negrão lembrou que "isso aconteceu num primeiro momento e nunca admitiu ter recebido a documentação" sobre a recuperação das armas. Só agora, "tarde e a más horas". 

À pergunta sobre se Costa não considera que caso exigia intervenção imediata da hierarquia militar e tutela política para apuramento de todas as responsabilidades disciplinares e políticas, Costa assumiu que é preciso saber a verdade, mas fugiu à pergunta no que toca a responsabilidades políticas.

Para qualquer pessoa neste país é urgente o esclarecimento cabal e absoluto sobre o que aconteceu em Tancos. Obviamente é inaceitável a ideia em qualquer instalação militar furto, por mais ou menos perigoso. O país quer saber duas coisas: como houve o roubo e o que é que se passou relativamente à operação de recuperação do material. Todos nós, serenamente, devemos respeitar normal funcionamento das instituições judiciais". 

Negrão acusou o Governo de "desvalorizar" e "banalizar"  um problema que é de "enorme gravidade nacional e internacional".

"Eu não desvalorizo nada e por não desvalorizar é que antes de ter havido o furto, o ministro da defesa autorizou reforçar segurança do paiol. O furto ocorreu entre o despacho e instalação desse material", apontou, tendo sido esse o seu argumento quanto à responsabilidade política neste caso.

"A Justiça tem um tempo que nem sempre se compagina com o tempo da vontade e da ansiedade e da política. Estou tranquilo e aguardo serenamente conclusão das instituições judiciárias em curso", insistiu ainda.

Também o CDS-PP tocou no tema "Tancos", com Assunção Cristas a querer saber se o Chefe do Estado-Maior do Exército e o ministro da Defesa não são “fator de fragilidade” para o Governo.

O primeiro-ministro reiterou que o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, "se aqui está é porque tem toda a confiança". E voltou a considerar que não se devem comentar informações sobre o depoimento prestado  pelo ex-porta-voz da PJ Militar, com base e "fugas de informação". "Considero muito mau caminho fazer política com informações que resultam da prática de crime", frisou.

Também repetiu o que já tinha dito a Fernando Negrão, que tinha dramatizado que em causa está "o prestígio das Forças Armadas, que normalmente o que faz faz bem feito".

Costa mostrou-se "chocado por verificar uma situação que desde 75 não se verifica que é partidarização da situação em torno das chefias militares", considerando "absolutamente lamentável" essa situação. Isso "indigna a democracia saudável que somos desde 26 de novembro de 1975". O primeiro-ministro chegou mesmo a falar em "falta de sentido de Estado". 

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