O mundo está em estado de alerta devido ao novo coronavírus que teve origem na cidade de chinesa de Wuhan. A evolução do vírus no seu epicentro parece estar a chegar a uma estagnação, algo que não se verifica no resto do mundo.

Mais de 40 países atingidos

Com especial incidência em países como Coreia do Sul, Irão e Itália, o COVID-19 tem aumentado o número de casos confirmados (e também o de mortes) de forma abrupta nestes países.

Em menos de uma semana, Itália passou de seis casos para mais de 500, e já registou 14 mortes. É aí que se centram as maiores atenções na Europa, mas muitos outros países confirmaram casos.

No mapa abaixo pode consultar a evolução do COVID-19 pelo mundo.

Quando surgiu o vírus?

A 31 de dezembro de 2019, o gabinete da Organização Mundial de Saúde da China (OMS) informa sobre mais de duas dezenas de casos de pneumonia de origem desconhecida detetados em Wuhan, na província de Hubei.

Entre 10 e 11 de janeiro, as autoridades chinesas identificam o agente causador das pneumonias como um tipo novo de coronavírus, que foi isolado em sete doentes. A China partilha a sequência genética do novo coronavírus com a comunidade internacional para desenvolver diagnósticos específicos.

Como se propagou para o mundo?

A 13 de janeiro é registado o primeiro caso confirmado do novo coronavírus fora da China, na Tailândia. Dois dias depois é a vez do Japão confirmar a existência de pessoas infetadas.

A 21 de janeiro é detetado o primeiro caso nos Estados Unidos, num doente em Washington que tinha regressado da cidade de Wuhan.

Quando chegou à Europa?

A 24 de janeiro. são confirmados em França os primeiros dois casos na Europa, ambos importados. Seguem-se casos na Alemanha, Finlândia e Rússia, e o vírus acaba por chegar a Itália, onde toma outras proporções.

A 16 de fevereiro, também em França, é confirmada a primeira morte fora da China.

Como tem reagido Portugal?

A 15 de janeiro é emitida a primeira declaração das autoridades portuguesas sobre o novo coronavírus. A diretora-geral da Saúde estima, com base nas informações provenientes da China, que o surto estará contido e que uma eventual propagação em massa não é “uma hipótese no momento a ser equacionada”.

Uma semana depois, Portugal anuncia que acionou os dispositivos de saúde pública e tem em alerta o Hospital de São João, no Porto, o Curry Cabral e Estefânia, em Lisboa.

Primeiro caso suspeito em Portugal surge a 25 de janeiro, mas as análises revelam que é negativo.

A 31 de janeiro, o Ministério da Saúde português anuncia que vai disponibilizar instalações onde os portugueses provenientes de Wuhan possam ficar em isolamento voluntário. Os doentes acabam por ser encaminhados para o Hospital Pulido Valente, onde acabam por ficar 14 dias em quarentena.

A 2 de fevereiro, um avião da Força Aérea Portuguesa que transportou os 18 portugueses retirados da cidade de Wuhan aterra ao princípio da noite na Base Aérea de Figo Maduro, em Lisboa. A bordo seguiam também duas cidadãs brasileiras que viajaram para Portugal.

O que têm dito as autoridades internacionais?

Depois de informar sobre a existência de alguns casos na China, a OMS foi fazendo permanentes atualizações relativamente à epidemia.

A 20 de janeiro as autoridades de saúde mundiais confirmam que há transmissão entre seres humanos, quando até então se pensava que podia não ocorrer.

A 23 de janeiro, a OMS reúne o seu comité de emergência na Suíça para avaliar se o surto constitui uma emergência de saúde pública internacional, mas decide não a decretar.

A 27 de janeiro, o o Centro Europeu de Controlo e Prevenção das Doenças pede aos estados-membros da União Europeia que adotem “medidas rigorosas e oportunas” para controlo do novo coronavírus.

Um dia depois, o mecanismo Europeu de Proteção Civil é ativado, a pedido de França, para repatriamento dos cidadãos franceses em Wuhan.

A 29 de janeiro é divulgado estudo genético que confirma que o novo coronavírus terá sido transmitido aos humanos através de um animal selvagem, ainda desconhecido, que foi infetado por morcegos.

Uma semana depois, a OMS volta a reunir o comité de emergência e declara surto como caso de emergência de saúde pública internacional, mas opõe-se a restrições de viagens e trocas comerciais.

A 3 de fevereiro, a OMS anuncia que está a trabalhar com a Google para travar informações falsas sobre o novo coronavírus. Um dia depois a OMS avisa que o surto ainda não é uma pandemia.

A 11 de fevereiro a OMS decide dar oficialmente o nome de Covid-19 à infeção provocada pelo novo coronavírus.

A 19 de fevereiro, a Comissão Europeia anuncia que vai cofinanciar o repatriamento de cidadãos da União Europeia que estavam a bordo do navio de cruzeiro Diamond Princess, atracado no Japão, através de aviões que saem de Itália.

A 24 de fevereiro, o diretor-geral da OMS avisa que o mundo tem de se preparar para uma “eventual pandemia” do novo coronavírus, considerando “muito preocupante” o “aumento repentino” de casos em Itália, Coreia do Sul e Irão.

Há portugueses infetados?

Até ao momento existe apenas um caso de um cidadão português infetado com o novo coronavírus. Trata-se de Adriano Maranhão, um homem de 41 anos, natural da Nazaré, e que está internado num hospital japonês. Contraiu o vírus no cruzeiro Diamond Princess, onde trabalhava como primeiro canalizador. A notícia foi inicialmente avançada pela TVI, e posteriormente confirmada pelas autoridades japonesas e portuguesas.

Relativamente a casos em solo português, as autoridades já despistaram 36 casos suspeitos, e outros 16 estão em análise.

Quantos casos existem e quantas mortes foram confirmadas?

Os números estão em constante atualização, mas à data deste artigo, os números oficiais da OMS falavam em mais de 81 mil casos confirmados em todo o mundo, dos quais resultaram quase 2.800 mortos.

A esmagadora maioria dos casos (mais de 96%) foi registada na China, que também domina o número de mortes (mais de 98%).

Além da China existem ainda mortes confirmadas nos seguintes países: Coreia do Sul, Japão, Filipinas, Itália, França e Irão. A OMS faz ainda referência a três mortes provenientes do cruzeiro Diamond Princess.

Quão letal é o vírus?

Ainda não se sabe ao certo qual o nível de mortalidade do novo coronavírus, mas, quando comparado com outras epidemias, parece ser menos letal. Dos mais de 81 mil casos confirmados, foram registadas perto de 2.800 mortes, o que dá uma percentagem de 3,4%, inferior à de outros coronavírus como a SARS (9,6%) ou o MERS (34,4%).

A percentagem diminui ainda mais quando analisamos os dados relativos aos casos fora da China. Em quase três mil casos, e com apenas 44 mortes, a percentagem de fatalidades é de 1,5%.

Além disso, refira-se que o vírus é potencialmente fatal em grupos de risco, nomeadamente idosos ou pessoas que apresentem condições patológicas adjacentes.

Várias autoridades de saúde têm dito que um cidadão comum, sem quaisquer problemas respiratórios e numa idade média, tem excelentes hipóteses de sobreviver em caso de ser contagiado.

Doença Casos Mortes Percentagem Início do Surto Fim do Surto
SARS 8.096 774 9,6% 16/11/2002 31/07/2003
MERS 2.220 790 34,4% 2012 2018
COVID-19 80.109 2762 3,4% Fim de 2019 Em curso

Qual o impacto na cultura e no desporto?

O ano de 2020 fica marcado pela realização de vários eventos desportivos de grande relevância. O Campeonato da Europa de futebol e os Jogos Olímpicos surgem na ponta do icebergue de muitos certames que podem ser condicionados pela propagação da doença.

A OMS já anunciou que está a avaliar a realização dos Jogos Olímpicos, que este ano se realizam no Japão, um país que é um dos país afetados e que está muito próximo do epicentro viral.

Nenhuma decisão será tomada a curto prazo em relação ao futuro dos Jogos Olímpicos. Estamos todos a trabalhar em conjunto para tentar preservar aquele que é um fantástico evento a nível mundial", indicou o diretor executivo da OMS, Michael Ryan.

Também a UEFA anunciou estar a acompanhar a situação, sobretudo num ano em que o europeu se realiza em 13 cidades de 13 países diferentes.

Certo é que a epidemia já começou a ter efeitos imediatos, tanto em provas europeias como em competições internas. O Inter de Milão-Ludogorets desta quinta-feira joga-se à porta fechada, enquanto o campeonato italiano já viu quatro jogos serem cancelados devido ao surto.

As consequências não se ficam por aqui, e vários eventos e festividades já foram cancelados, sobretudo em Itália. O famoso carnaval de Veneza foi mesmo suspenso, na sequência do disparar de casos no país.

Pela mesma altura foram anunciados constragimentos na Semana da Moda, em Milão.

Quais os efeitos na política internacional?

Uma pandemia pode criar situações de “pandemónio” e vários governantes temem a repercussão social da propagação incontrolada do vírus numa aldeia global” onde os fenómenos não reconhecem fronteiras.

O presidente norte-americano, Donald Trump, está preocupado com o impacto do novo coronavírus na sua tentativa de reeleição, em novembro próximo.

Os analistas dizem que o impacto do Covid-19 nas eleições norte-americanas pode ser uma "faca de dois gumes": numa primeira hipótese, a economia dos EUA é afetada a longo prazo, fragilizando a posição de Trump, que tem usado a bandeira do desempenho económico; num segundo cenário, o surto tem uma curta duração, afetando a produção de bens durante alguns meses, com a oferta a retomar na véspera da eleição, de forma compactada, favorecendo a posição de Trump.

De acordo com o jornal norte-americano Politico, Trump já pediu aos seus conselheiros para analisarem todos os cenários e solicitou um relatório pormenorizado sobre medidas de emergência ao Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

O problema é global e a grande variável é saber qual a dimensão que ele vai atingir, diz José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-Nova).

Este especialista alerta para os riscos que os governos correm, se uma pandemia se espalha durante longos períodos de tempo.

Para já, na Europa, onde os casos de infeção começam a multiplicar-se em várias regiões, os governos procuram mecanismos de contenção da doença, acionando mecanismos administrativos de isolamento do vírus.

Mesmo em França, onde há uma forte tradição de direitos individuais – que impossibilitam, por exemplo, que uma pessoa que decida desaparecer não possa ser procurada pela polícia, mesmo sob pretexto de “interesse familiar” – o governo anunciou que irá proceder à obrigatoriedade de internamento para as pessoas infetadas.

Qual a influência na economia mundial?

O Fundo Monetário Internacional (FMI) considerou que o surto do novo coronavírus coloca em risco a recuperação económica mundial e manifestou disponibilidade para ajudar financeiramente os países mais pobres e vulneráveis.

Têm sido vários os dias em que as bolsas mundiais têm começado os dias no negativo. Os especialistas não têm dúvidas, e apontam a epidemia como a principal causa da instabilidade dos mercados.

António Guimarães