Decorreu esta sexta-feira a terceira sessão do julgamento da morte de Valentina, criança de nove anos encontrada morta em Peniche, crime pelo qual o pai e a madrasta estão acusados de homicídio qualificado e profanação de cadáver.

A partir da sala de audiências, improvisada no Auditório Municipal da Batalha, foi divulgado o primeiro interrogatório a Sandro Bernardo, pai da vítima.

Começando por confirmar a versão da mulher, Márcia Monteiro, de que a criança tinha dito que mandava "papelinhos" aos amigos da escola para lhe mexerem na vagina, o suspeito afirmou que recebeu informações semelhantes vindas da mãe da criança.

Sandro Bernardo terá então confrontado a filha com os factos, que a menina terá negado. De seguida, agrediu a filha, segundo o próprio confirmou: "Dei-lhe uma tareia. Fiquei com a mão escaldada. Dei tantas bofetadas até ficar com a mão escaldada". Este momento terá sido presenciado por Márcia Monteiro.

No dia da morte, e depois de ter ficdo a saber que a filha podia ter sido alvo de abuso sexual por parte do padrinho, Sandro Bernardo decidiu confrontar Valentina.

E ela não falava. Continuava a não querer falar. Sei que ela tem medo de água quente e levei-a para a banheira e ameacei-a com água quente. Ela continuava calada. Eu mandava água à menina. Para os pés e para o corpo inteiro. Ela disse que era para eu parar que me contava. E eu parava e ela continuava calada", disse aos inspetores.

Durante este momento, Márcia Monteiro tentou impedir Sandro Bernardo de molhar a menina, mas o pai não deixou. Apesar de confirmar o "banho", o suspeito afirma que "a água não estava no máximo a nível de temperatura".

Conta que, de seguida, Valentina "começou a ter aquelas convulsões". Aí, terá fechado a torneira de água quente, com a criança a continuar convulsiva.

Sandro Bernardo levou então a menina para a cozinha, onde as convulsões "continuaram". Tudo isto por volta das 09:30.

Em pânico, diz que ficou com receio das marcas que a menina tinha, e por isso não ligou para os bombeiros: "Dei-lhe uma tareia na semana anterior. Ela tinha marcas". O casal decidiu então levar a criança para o quarto.

Confirmando sempre a versão de Márcia Monteiro, o pai da vítima disse que se dirigiram depois à lavandaria, ficando Raúl (filho de Márcia) com Valentina.

É aqui que os depoimentos de Márcia e Sandro se desencontram. A madrasta diz ter recebido uma chamada do filho a avisar do estado de Valentina, chamada essa que Sandro diz não ter existido.

Ao chegar a casa, o pai percebeu que havia algo errado com a filha: "Quando cheguei já não ouvia o coração da Valentina. Veio-me à cabeça, não sei, pânico, medo".

Percebendo que a menina estava morta, Sandro Bernardo pegou no corpo e na esposa, e dirigiram-se ao pinhal. Tal como disse Márcia Bernardo, o suspeito confirma que a madrasta ficou no carro.

O pai tirou o corpo de Valentina do banco de trás, tendo desaparecido por "10/15 minutos". Sobre o corpo deixou "uns arbustos".

Sobre as agressões, confirmadas pelo próprio, Sandro Bernardo diz que lhe bateu "sempre de mão aberta", nunca lhe apertando o pescoço.

Houve uma altura em que ela me caiu das mãos. Mas acho que não bateu em nada. Não sei. Não me recordo. Não quero estar a mentir. Nunca a empurrei contra móveis ou paredes", referiu.

Ao chegar a casa, disse ao filho de Márcia, Raúl, que podia ficar sem ver a mãe e as irmãs, pelo que devia ficar "caladinho".

Questionado sobre qual o momento em que percebeu que a menina estava morta, Sandro Bernardo admite que pode ter sido ainda antes de ir à lavandaria.

Eu já tinha isso na cabeça. Que ela podia estar morta", disse.

À exceção da ausência do telefonema de Raúl à mãe, Sandro Bernardo corrobora a versão contada por Márcia Monteiro em primeiro interrogatório judicial.

Sobre a relação com a mulher, Sandro Bernardo confirma a existência de discussões violentas, mas nega a existência de agressões físicas. Neste ponto, e recordando o interrogatório de Márcia Monteiro, a mulher afirmou ter medo e ter sido ameaçada pelo marido.

Ainda em interrogatório, o pai de Valentina admitiu que não procedeu da melhor forma: "Tenho um sentimento de culpa. Não devia ter feito as coisas que fiz e devia ter feito as coisas de maneira diferente".

Mais tarde, e em sede de tribunal, depois de confrontado com dois depoimentos contraditórios, Sandro Bernardo negou as declarações acima reproduzidas.

Pai e madrasta respondem em co-autoria por homicídio qualificado, profanação de cadáver, abuso e simulação de sinais de perigo. O pai, por ter sido o autor das agressões, está ainda acusado de violência doméstica.

A criança, de nove anos, foi dada como desaparecida na manhã de uma quinta-feira, depois de uma denúncia do pai no posto de Peniche da GNR. Na manhã de domingo, 10 de maio, foi encontrada sem vida numa zona eucaliptal, na Serra D'el Rei, em Peniche.

No dia em que a criança foi encontrada, Sandro Bernardo confessou ter cometido o crime.