Foi no fim de uma semana de muitas acusações entre a União Europeia e a AstraZeneca que a Agência Europeia do Medicamento aprovou o produto desenvolvido contra a covid-19 pela farmacêutica britânica.

Será a terceira vacina a poder ser administrada no espaço comunitário, depois das aprovações dos produtos da Pfizer e da Moderna.

Desde os níveis de eficácia às condições de conservação e administração, este é um fármaco em muito diferente dos outros dois.

Preço

Começando pelo preço, a vacina da AstraZeneca será administrada, como todas as outras aprovadas para distribuição na União Europeia. Apesar disso, naturalmente que a produção e aquisição do produto tem um custo, neste caso suportado pelos 27 Estados-membros.

Segundo a agência France-Presse, o custo por dose será de 2,50 euros, sendo que a farmacêutica diz que se comprometeu a não lucrar com o fabrico da vacina.

Comparando diretamente com as vacinas da Pfizer e da Moderna, que custam cerca de 12 e 14 euros por dose, respetivamente, ainda que estes valores não tenham sido divulgados de forma oficial, para não comprometer os aspetos de concorrência.

Melhores condições de manutenção

Um dos grandes problema associados à vacina da Pfizer é a refrigeração. O produto da farmacêutica norte-americana. desenvolvido em parceria com a alemã BioNtech, tem de ser armazenado a 70 graus negativos, algo que criou muitas dificuldades na forma de garantir o transporte e armazenamento do produto.

Apesar de não ser tão extrema, a vacina da Moderna requer uma refrigeração de 20 graus negativos.

Quando comparada com estas, a vacina da AstraZeneca mostra-se muito mais fácil de acondicionar. São entre dois a oito graus, pelo menos por seis meses, garantiu a farmacêutica.

Recorde-se que o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, em Penafiel, teve recentemente um problema com as condições de refrigeração de várias vacinas, tendo-se estragado cerca de 600 doses.

Vetor viral em vez de mRNA

As vacinas da Pfizer e da Moderna foram desenvolvidas com um processo inédito em aplicação. O mRNA, ou ARN mensageiro estava há muito em investigação, mas nunca tinha sido utilizado em biomédica.

O produto da AstraZeneca, por oposição, funciona como um vetor viral. Basicamente, utiliza outro vírus, neste caso será um adenovírus que afeta chimpanzés, que é geneticamente modificado para que não seja perigoso para o ser humano.

É inserida uma peça de código que aciona uma proteína específica que faz com que o corpo produza os anticorpos necessários para inocular o vírus.

Poucos efeitos secundários

Segundo os dados analisados pela revista científica The Lancet, a vacina da AstraZeneca é "segura", tendo sido reportados muito poucos efeitos secundários.

Entre os mais de 23 mil voluntários que participaram nos ensaios clínicos, apenas um dos doentes teve um efeito secundário considerado grave.

Nesse caso, o doente desenvolveu uma mielite transversa, uma condição neurológica rara, que levou mesmo à interrupção dos ensaios clínicos.

Eficácia abaixo das outras

Comparando a eficácia das três vacinas, a da AstraZeneca fica consideravelmente abaixo das outras. A Pfizer e a Moderna têm pelo menos 90% de eficácia cada, enquanto que a da farmacêutica britânica não deve ir além dos 70% de eficácia, ainda que vários números tenham sido apresentados.

Concluiu-se que poderá ter uma maior eficácia nos doentes mais graves, mas que a efetividade nas novas variantes, nomeadamente na sul-africana, fica pouco acima dos 50%.

Polémica acima dos 65 anos

Nos últimos dias surgiu também uma polémica relacionada com a efetividade nas pessoas maiores de 65 anos. Vários estudos entenderam que isso seria arriscado, mas a AstraZeneca garante que não há problema.

A verdade é que, tal como toda a União Europeia, Portugal conta com esta vacina para cumprir os objetivos de inoculação traçados.

António Guimarães