Foi quente o verão em Chemnitz. Tanto que, se fosse possível, o busto de Karl Marx até poderia mostrar uma cara de espanto ou de pavor ao contemplar a praça onde está, na cidade do leste da Alemanha, repleta de manifestantes convocados por forças radicais, como o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e o movimento xenófobo e anti-Islão Pegida.

Mas, do alto dos seus 13 metros e com o peso da história e das suas 40 toneladas de bronze, fundido na antiga União Soviética, a estátua do ideólogo do comunismo manteve-se inevitavelmente inalterada, apesar dos confrontos e manifestações de milhares que promoveram uma autêntica "caça ao estrangeiro", após a morte por esfaqueamento de um alemão e a detenção pela polícia de dois suspeitos do crime, um iraquiano e um sírio. Tudo se passou entre os finais de agosto e início de setembro. Em Chemnitz, cidade que, durante quase quatro décadas, se chamou Karl-Marx-Stadt, nos tempos da RDA.

Mas, desde então, a Alemanha mudou. E nos últimos anos, mais ainda, quando o partido AfD, ao cabo de quatro anos de existência conseguiu entrar em força no parlamento federal. No Bundestag, os ultranacionalistas conseguiram 94 dos 709 deputados, tornando-se o maior partido da oposição face à renovada "geringonça" governativa da chanceler Merkel. Que, mais ainda, voltou a precisar da aliança com os sociais-democratas, após os seus democratas-cristãos terem registado o pior resultado eleitoral nos últimos 70 anos, no final de 2017.

A Alemanha, contudo, está bem longe de ser um caso isolado de ressurgimento e crescimento exponencial de forças políticas conotadas com a extrema-direita na Europa. O ano de 2018 mostrou ser de afirmação de um fenómeno que muitos analistas políticos veem como uma reação contra o establishment, após a crise financeira e migratória, a que se juntam receios antigos e enraizados face à globalização e diluição das identidades nacionais.

De país para país, haverá diferenças entre os partidos e movimentos de extrema-direita que se foram afirmando em 2018. Mas, por regra, todos comungam de temas comuns: são hostis à imigração, usam uma retórica anti-islâmica e fazem finca-pé no euroceticismo.

As eleições europeias que se aproximam, marcadas para 26 de maio de 2019, irão servir de barómetro para avaliar a pressão política e social das forças extremistas, que têm vindo a conquistar poder em muitos dos países do Velho Continente.

Alemanha e o ciclone AfD

Nas legislativas de 2013, a Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha) ou AfD ficou fora do Bundestag, por não conseguir alcançar os 5% de votos. Ficou-se pelos 4,7%. Quatro anos depois, chegou aos 12,6% e entrou desafiante no parlamento federal alemão.

Assumindo-se na sua criação como um partido anti-euro, anti-imigração e anti-islâmico, o sucesso eleitoral da AfD foi interpretado como um sinal de descontentamento dos alemães com a política de abertura de fronteiras da chanceler Angela Merkel para os refugiados: em 2015, cerca de um milhão de indivíduos entraram na Alemanha, muitos dos quais muçulmanos da Síria, Iraque e Afeganistão.

Merkel continuou chanceler após as eleições de 2017, para aquele que já anunciou ser o seu último mandato, e renovou a coligação com os sociais-democratas do SPD. Mas, até dos seus umbilicais parceiros da União Social-Cristã da Baviera (CSU) sofreu pressões para limitar a sua política de imigração. O que acabou por fazer.

Áustria: FPO no poder

O ano de 2018 foi de estreia para a extrema-direita austríaca no governo do país: em meados de dezembro do ano passado, os conservadores do novo chanceler Sebastian Kurtz acordaram uma coligação com o FPO-Partido da Liberdade, que tinha sido o terceiro mais votado nas eleições realizadas em outubro.

A ascensão do Freiheitliche Partei Österreichs só terá constituído uma surpresa para os menos atentos, já que, no final de 2016, o seu candidato Norbert Hofer só foi derrotado na segunda volta, após ter sido o mais votado no primeiro turno das presidenciais.

Assim, no início deste ano, a Áustria era o primeiro país da Europa ocidental com um partido de extrema-direita no executivo e as políticas face à imigração e aos refugiados endureceram com o novo governo do chanceler conservador Sebastian Kurz.

Itália: um casamento "às direitas"

O murro no estômago provocado pela crise financeira e o se ter tornado a principal porta de entrada de refugiados na Europa são as razões apontadas para o desfecho eleitoral verificado a 4 de março: a Lega - Liga, antiga Liga Norte - foi a mais votada, seguida dos populistas do Movimento 5 Estrelas.

Após tentativas fracassadas, avanços e recuos, tão próprios da cena política italiana do pós-Grande Guerra, a aliança entre os dois mais votados formou governo. O professor universitário Giuseppe Conte assumiu o cargo de primeiro-ministro, mas as luzes da ribalta têm-se focado em Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e titular da pasta do Interior.

Com um programa governativo que prevê planos de deportação em massa para migrantes sem documentos, Matteo Salvini tem sido o ponta de lança dessa cruzada, desafiando tudo o que lhe surge pela frente, seja a nível interno, seja a nível europeu. Há meses, ao visitar a Sicília, o ministro foi claro em afirmar que a ilha não pode ser "o campo de refugiados da Europa".

Face a Bruxelas, o governo italiano, apoiado no euro-ceticismo que levou os populistas do 5 Estrelas e a Liga a vencerem as eleições, fez finca-pé com a proposta de orçamento para 2019 e acabou por se safar de um procedimento por défice excessivo. Aproveitando até uma nova derrapagem nas contas de França, devido às concessões que o presidente Emmanuel Macron se viu obrigado a fazer, para tentar conter os protestos semanais dos "coletes amarelos".

França: Marine, madame Le Pen

"As nações salvarão a Europa" é um dos slogans que a líder da extrema-direita francesa já começou a empunhar, tendo em vista as próximas europeias, para as quais já selou um agrément com o italiano Matteo, numa aliança a que chamaram de Frente da Liberdade e que prevê entendimentos pós-eleitorais.

Eu e o Matteo Salvini não lutamos contra a Europa, lutamos contra a União Europeia, que se tornou um sistema totalitário. Lutamos contra a União Europeia para salvar a verdadeira Europa", clamou Le Pen, em outubro, após um encontro com o compère italiano.

Anti-União Europeia, anti-Euro e anti-imigração em massa, o partido liderado por Marine - rebatizado como Rassemblement National - tem conquistado apoiantes, desde que foi criado pelo seu pai Jean-Marie Le Pen. Tal como ele - em 2002, nas presidenciais ganhas por Chirac - ela conseguiu no ano passado chegar à segunda volta. Perdeu para Macron, mas registou 33,9% dos votos: 10,6 milhões de votos de franceses.

Os quatro de Visegrado

Na Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia - os quatro países que constituem o Grupo de Visegrado, criado nessa cidade húngara em 1991 -, a rejeição da imigração e das vagas de refugiados que, nos últimos anos, procuram acolhimento na Europa, tem sido a pedra de toque para o crescimento da extrema-direita.

O conservador Viktor Orban, reeleito primeiro-ministro em abril para um terceiro mandato com maioria absoluta, tem clamado que a nova vitória do seu partido FIDESZ deu aos húngaros  "a oportunidade de se defenderem e de defender a Hungria", continuando a propagandear contra "uma Europa com população misturada e nenhum sentido da identidade".

À conta das suas políticas anti-imigração, o Parlamento Europeu recomendou ao Conselho a instauração de um procedimento disciplinar à Hungria por violação grave dos valores europeus, em matérias como as migrações e o Estado de direito. Mas, o nacionalista Orban governa um país politicamente muito inclinado para a direita: o segundo partido é o Jobbik, de extrema-direita, que ocupa 26 dos 199 lugares no parlamento. E que, ao ter suavizado o seu discurso político, deu azo à criação de uma fação ainda mais radical: a Força e Determinação.

Viktor Orban tem sido a principal voz entre os países de Visegrado a opor-se à política da União Europeia de estabelecer quotas para o acolhimento de refugiados. Mas, tem sido particularmente apoiado pelo governo polaco de Mateusz Morawiecki, do maioritário partido Lei e Justiça (Prawo i Sprawiedliwość), cujas medidas internas têm feito tocar os alarmes na cúria da União Europeia. Caso, por exemplo, da lei que proíbe acusar a Polónia de cumplicidade com o holocausto nazi, que muitos veem como uma tentativa de branquear a história.

Escandinávia: a extrema-direita cresce no frio

Rajat kiinni! "Cruz fechada", em tradução, é o nome do movimento anti-imigração que se tem mostrado na longínqua Finlândia, onde, em 2015, o Perussuomalaiset, o Partido dos Finlandeses, de extrema-direita se tornou a segunda força parlamentar e integrou mesmo a coligação governamental.

Nos tradicionalmente hospitaleiros países nórdicos, a rejeição do fenómeno dos refugiados tem sido o gatilho para o crescimento de forças nacionalistas. Em 2018, nas eleições gerais, o partido anti-imigração Democratas Suecos (Sverigedemokraterna), que tem raízes em movimentos neonazis subiu de 12,9% para cerca de 18% dos votos: ocupa 62 dos 349 assentos parlamentares.

A sul, o suporte parlamentar dado pelo Dansk Folkeparti (Partido Popular Dinamarquês) - nacionalista e visto como de extrema-direita - ao governo do liberal Lars Løkke Rasmussen tem levado à criação de alguma das mais duras regras de imigração na Europa: os bens dos refugiados podem ser confiscados, quando são superiores a cerca de 1.300 euros, para suportar a sua manutenção no país. E recentemente, os dinamarqueses pretendem colocar os estrangeiros mais indesejáveis numa ilha suficientemente distante do continente. Que serve de centro de investigação para doenças de animais contagiosas.

O Vox que se faz ouvir em Espanha

Aqui ao lado, o início do mês de dezembro revelou a força do Vox, o partido nacionalista, anti-imigração e conotado com ideias de extrema-direita, que conseguiu pela primeira vez entrar no parlamento da Andaluzia: elegeu 12 dos 109 deputados regionais.

O Vox foi fundado em dezembro de 2013 por dissidentes do Partido Popular, descontentes com a política seguida pelo governo de Mariano Rajoy em relação aos independentistas bascos da ETA e também por defenderem um estado espanhol mais centralista.

Santiago Abascal Conde, um sociólogo de 42 anos, basco, nascido em Bilbau, que já foi deputado regional é líder do novo partido espanhol, que, sobretudo após o resultado nas eleições andaluzas, se tornou um caso sério, sobretudo nas redes sociais.

O jornal El País assinala que o Vox é líder em Espanha no que toca a seguidores no Instagram, face aos restantes partidos, e cresce o número de adeptos no Facebook e Twitter.

Não temos mais confiança na imprensa. Assumimo-nos como o nosso próprio canal de comunicação", frisa Manuel Mariscal, diretor das contas on-ine do Vox, citado pelo El País.

O uso das redes sociais e do seu poder pelo Vox, em Espanha, repete apenas a aposta que outras forças e campanhas populistas já testaram antes, com sucesso, noutras partes do planeta. Aconteceu com a eleição de Donald Trump, do italiano Matteo Salvini e, mais recentemente, com Jair Bolsonaro, no Brasil.

Bolsonaro e o Brasil Livre de Kim

Neste 1.º de janeiro, Jair Bolsonaro será empossado como 38.º presidente do Brasil. No 1.º de fevereiro, será a vez de Kim. Com os seus 22 anos, será o mais novo de sempre entre os 513 deputados federais no plenário Ulysses Guimarães.

Kim Kataguiri, neto de emigrantes japoneses, foi eleito deputado federal pelo estado de S. Paulo pelo partido Democratas (DEM),  uma força cuja ideologia política é o conservadorismo-liberal. Mas, antes, o jovem tornou-se conhecido e conquistou apoios através do Movimento Brasil Livre (MBL) e da sua expansiva presença nas redes sociais: três milhões de seguidores no Facebook e mais de um milhão no YouTube.

Nas ruas, o Movimento Brasil Livre mostrou-se em 2015, fazendo força pelo impeachment de Dilma Rousseff na presidência do país. Kim e outros marcharam mil quilómetros durante 33 dias, de S. Paulo a Brasília. Mas, mesmo que Kataguiri assuma ter sido esse "o boom", assegura em entrevistas dadas que o MBL é "a maior rede política da internet”.

A capacidade de mobilização demonstrada por grupos conservadores durante os protestos maciços a favor do impeachment de Dilma resultou em parte do uso altamente eficaz das redes sociais. De acordo com vários rankings, essas organizações geralmente estão entre as principais e as mais frequentadas páginas e publicações do Facebook", sustenta Marisa Von Bulow, professora no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

A investigadora brasileira, numa análise incluída num estudo promovido pelo Carnegie Endowment for International Peace, um "think tank" norte-americano de política externa, assinala que "a sociedade civil conservadora tem crescido através do novo ambiente digital, mais especificamente das plataformas de redes sociais que se tornaram acessíveis a muito mais pessoas e que estão bem adaptadas a um estilo de comunicação política baseado no debate face ao adversário. Para muitos grupos conservadores, que não possuem recursos organizacionais, as redes sociais tornaram-se o principal meio de encontrar simpatizantes e difundir ideias".

Os seus líderes fizeram um esforço consciencioso para desenvolver um estilo de comunicação online mais popular e atraente do que o dos tradicionais setores conservadores. Esse estilo de comunicação, que se ajusta bem ao que os estudants apelidaram de “populismo 2.0”, caracterizado por três dimensões principais: simplificação, emoção e negatividade", refere Marisa Von Bulow.

Se "a simplificação é o mecanismo de redução da complexidade da vida política a uma luta entre o povo e o seu inimigo", a analista assinala ainda que os grupos conservadores "adaptaram o seu estilo de comunicação para usar humor e ironia e difundir as suas ideias para um público mais amplo de possíveis apoiantes". Sendo que há também uma propaganda negativa "em termos de diagnósticos apresentados", nos quais se enfatiza "a existência de crises e ameaças urgentes que requerem a atenção imediata dos cidadãos".

O estudo "A mobilização da sociedade civil conservadora" do Carnegie Endowment for International Peace elenca a afirmação de movimentos sociais conservadores e de forças políticas populistas, este ano, em vários pontos do globo, da Ucrânia ao Uganda, da Turquia à Tailândia e à Índia.

O crescimento das forças de direita hoje é suficientemente sinistro", confessava o filósofo norte-americano Noam Chomsky, numa entrevista dada a meio do ano à influente revista indiana Frontline, para quem o fenómeno é "parte do colapso geral das instituições políticas do centro durante o período neoliberal, evidente nas recentes eleições nas democracias industriais".

Para Chomsky, conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos, "a ascensão da extrema-direita é uma manifestação desse processo, assim como o surgimento de movimentos populares e organizações políticas que buscam levar adiante as políticas sociais-democratas".